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domingo, 27 de abril de 2008

Recife, cidade-parasita

Esse texto foi escrito em março de 2006, não lembro exatamente com que finalidade. Agora tenho a oportunidade de finalmente publicá-lo, apesar de o assunto não fazer mais parte do meu dia-a-dia e de a cidade ter passado a oferecer (poucas) opções a mais de diversão noturna, descrowdeando alguns lugares legais.

Recife, cidade-parasita

Bastou um amigo passar alguns meses no Rio para, quando voltar, dar o veredicto: Recife só tem parasita. Claro que não somos a única cidade que sofre do fenômeno, mas por sermos a maior cidade pequena do mundo, os sintomas são ainda mais graves. Como cheguei a essa conclusão? Fácil.
Bar Garraffus, bairro de Casa Amarela. Logo ali atrás do Sítio da Trindade, na frente do Colégio Apoio. O bar é um terraço aberto, serve cerveja gelada e quase sempre tem uma banda legal tocando no palquinho. Eis que o pessoal de uma banda do cenário alternativo recifense resolve fazer um projeto paralelo, só tocando composições de Chico Buarque. Fecharam com o dono do bar: toda quinta eles tocariam lá. Couvert artístico de 3 reais por pessoa e todo mundo sai bem.
O que você acharia se eu dissesse que na terceira apresentação, a rua estaria lotada com um monte de gente pineapple*, carros com o porta-malas aberto vomitando qualquer porcaria sonora pra rua, barracas alternativas ao bar lotando as calçadas... Ai, se Chico fica sabendo disso.
Se eu tivesse um filho playboy, dificilmente imaginaria que ele ia se meter numa confusão dessas pra ouvir uma banda tocando Chico Buarque. Mas é que a cidade tem tão pouca oferta e tanta demanda que o pessoal se vê obrigado a ir parasitar onde tem muita gente e é de graça! Além de ser perto de casa, claro. Pena que boa parte deles nem sabe o que tá tocando lá dentro, tem um cara colocando poperô no som do carro, virado pro lado dos amigos dele...
E quem se incomoda com isso? Até aí tudo bem. A banda adora, porque o show lota e eles ficam conhecidos. O pessoal (parasita) também adora, porque agora tem como encontrar os amigos num lugar tranqüilo e com música boa tocando de fundo.
Problema é quando o bar “não consegue mais” ter controle de quantos couverts vai cobrar, e a banda fica sem receber. Quando o pessoal que vai pra ver a banda acaba não tendo onde parar o carro, graças ao engarrafamento de pessoas e carros de mão. Quando consegue pegar uma mesa no bar, os amigos parasitas pedem cerveja na sua conta, mas não pagam o couvert. E a conversa? De tão alta, faz a banda de 4 integrantes soar como um radinho de pilha.
Porém, devemos admitir: os parasitas de Recife não são culpados. Eles são frutos de uma cidade carente de programação de qualidade pra todos. A pessoa acaba tendo que ir pra lugar de gente alternativa, tudo em nome da noite agitada. Mesmo sabendo que, se chover, não cabe todo mundo dentro do bar.


*pineapple: sabe quando, no curso de inglês, você tá estudando vocabulário? Digamos que você está aprendendo o tema “furniture”. Aí no livro tem um desenho de um ambiente, com um monte de coisa pra você identificar o que não faz parte daquele conjunto. Table, chair, desk, sofa... quando, de repente, tem um abacaxi num canto. É aí que você percebe que aprendeu, e circula o abacaxi, gritando “Pineapple! Pineapple!”. Entendeu?