terça-feira, 5 de outubro de 2010

Última chance de ver

Eu acabei de terminar de ler um livro incrível de Douglas Adams, o último da bibliografia dele que faltava na minha coleção: Last Chance To See. O livro trata de uma viagem que ele fez entre 1988 e 1989 acompanhado do biólogo Mark Carwardine ao redor do mundo, em busca de alguns dos animais mais ameaçados de extinção no planeta.

Eu sempre fui alheio a essa coisa de proteção da natureza e tal, e apesar de me emocionar bastante com algumas coisas do livro, pouca coisa mudou em relação a isso. Claro que a pessoa passa a ser fã de alguns bichos, tem vontade de ir pras Ilhas Komodo ver uma lagartixa do tamanho de um jacaré que come uma cabra de uma vez só. Mas o que importa nesse livro (como em todos de Douglas Adams, na minha opinião) não é a história sendo contada, mas sim os raciocínios que ele faz ao longo do livro.

Num dos capítulos, ele vai à China pra tentar ver o Baiji, um golfinho cego que só existe(ia) ao longo do rio Yangtze, mas que, com a industrialização e o surgimento do motor a diesel, teve sua população de milhares diminuída para apenas 300, ao longo de centenas de quilômetros de rio, à época da visita. Com o boom da economia chinesa no começo da década de 90, a população caiu vertiginosamente de novo e hoje ele é considerado extinto. O último Baiji vivo foi visto em 2004.

Essa é a parte que comove. A parte que te faz pensar de verdade é quando ele conta sobre o resto da viagem, particularmente quando ele se confronta com uma parte "intacta" da Grande Muralha e se questiona quanto ao valor das coisas construídas. Para isso, ele utiliza uma lógica bem interessante, quase filosófica, que me lembrou do Navio de Teseu, uma história da Grécia Antiga sobre a qual eu li num livro sobre restauração de patrimônio arquitetônico.

Nessa passagem, ele compara a própria reação à conservação da Grande Muralha (cuja maior parte foi construída na Dinastia Ming, entre os séculos 14 e 17) à surpresa que ele teve ao ver o Templo do Pavilhão Dourado (Kinkaku-ji, do século 14) em Kyoto, no Japão. O templo é feito em madeira e pintado - somente - de ouro:
I remembered once, in Japan, having been to see the Gold Pavilion Temple in Kyoto and being mildly surprised at quite how well it had weathered the passage of time since it was first built in the fourteenth century. I was told it hadn't weathered well at all, and had in fact been burnt to the ground twice in this century. "So it isn't the original building?" I had asked my Japanese guide.
"But yes, of course it is," he insisted, rather surprised at my question.
"But it's burnt down?"
"Yes."
"Twice."
"Many times."
"And rebuilt."
"Of course. It is an important and historic building."
"With completely new materials."
"But of course. It was burnt down."
"So how can it be the same building?"
"It is always the same building."
I had to admit to myself that this was in fact a perfectly rational point of view, it merely started from an unexpected premise. The idea of the building, the intention of it, its design, are all immutable and are the essence of the building. The intention of the original builders is what survives. The wood of which the design is constructed decays and is replaced when necessary. To be overly concerned with the original materials, which are merely sentimental souvenirs of the past, is to fail to see the living building itself.
- Douglas Adams, Last Chance to See, p. 149

Assim eu me emociono, Adams.