segunda-feira, 28 de abril de 2008

Asfiral

Sexta-feira, Bar do Neno, Parnamirim. Eu chego e avisto o típico quadro-negro com a sugestão do dia: Espiral de cordeiro, li. Não vou negar que fiquei curioso. Como eles fizeram uma espiral de cordeiro? Acho que vou pedir isso

(...)

Eu: Vê, e essa espiral de cordeiro aí?
Abel (não o Braga, o garçom): Aspiral?
E: Isso, que seja. Como é esse negócio?
A: É tipo umas sacicinha, pequenininha assim, que vêm enrolada né. Tipo um cordãozinho. Aí é aspiral. Tem apimentada e sem ser apimentada. Vai querer?
E: Vou, vai. Apimentada, por favor.
A: Ok.

(...)

- Apimentada acabou, pode ser sem ser apimentada?
- Pode, pode.

(...)

(...)

- Ô, meu querido. Cadê minha espiral?
- Aspiral?
- Isso, ela mesma.
- Tá saindo, tá saindo.

(...)

Chega outro garçom, mais novo e com uma posição mais baixa na hierarquia com um prato na mão. Põe o prato sobre a mesa. Então, tenho a seguinte imagem à minha frente:



Depois de uma pequena pausa pra todo mundo fazer cara de espanto, rir e ficar em silêncio, o que durou uma média de uns 4 segundos, eu puxo o jovem garçom de volta e pergunto, desconcertado:

- Vem cá, vê.. assim... Qual é o nome desse prato?
- Asfiral.
- (risos). Beleza. Ok.

Este prato me custou 10 reais. Talvez seja a vida me ensinando a nunca pedir a sugestão do dia. Na certa é a comida que tá mais próxima de perder a validade e tão querendo renovar logo o estoque. Tanto que nem da apimentada tinha mais. Não duvido que o meu pacote de sacicinha tenha sido o último, e por isso tenha perdido sua geometria espiral original. E agora eu estou convencido de que estávamos errados o quadro e eu: espiral não, asfiral.

domingo, 27 de abril de 2008

Recife, cidade-parasita

Esse texto foi escrito em março de 2006, não lembro exatamente com que finalidade. Agora tenho a oportunidade de finalmente publicá-lo, apesar de o assunto não fazer mais parte do meu dia-a-dia e de a cidade ter passado a oferecer (poucas) opções a mais de diversão noturna, descrowdeando alguns lugares legais.

Recife, cidade-parasita

Bastou um amigo passar alguns meses no Rio para, quando voltar, dar o veredicto: Recife só tem parasita. Claro que não somos a única cidade que sofre do fenômeno, mas por sermos a maior cidade pequena do mundo, os sintomas são ainda mais graves. Como cheguei a essa conclusão? Fácil.
Bar Garraffus, bairro de Casa Amarela. Logo ali atrás do Sítio da Trindade, na frente do Colégio Apoio. O bar é um terraço aberto, serve cerveja gelada e quase sempre tem uma banda legal tocando no palquinho. Eis que o pessoal de uma banda do cenário alternativo recifense resolve fazer um projeto paralelo, só tocando composições de Chico Buarque. Fecharam com o dono do bar: toda quinta eles tocariam lá. Couvert artístico de 3 reais por pessoa e todo mundo sai bem.
O que você acharia se eu dissesse que na terceira apresentação, a rua estaria lotada com um monte de gente pineapple*, carros com o porta-malas aberto vomitando qualquer porcaria sonora pra rua, barracas alternativas ao bar lotando as calçadas... Ai, se Chico fica sabendo disso.
Se eu tivesse um filho playboy, dificilmente imaginaria que ele ia se meter numa confusão dessas pra ouvir uma banda tocando Chico Buarque. Mas é que a cidade tem tão pouca oferta e tanta demanda que o pessoal se vê obrigado a ir parasitar onde tem muita gente e é de graça! Além de ser perto de casa, claro. Pena que boa parte deles nem sabe o que tá tocando lá dentro, tem um cara colocando poperô no som do carro, virado pro lado dos amigos dele...
E quem se incomoda com isso? Até aí tudo bem. A banda adora, porque o show lota e eles ficam conhecidos. O pessoal (parasita) também adora, porque agora tem como encontrar os amigos num lugar tranqüilo e com música boa tocando de fundo.
Problema é quando o bar “não consegue mais” ter controle de quantos couverts vai cobrar, e a banda fica sem receber. Quando o pessoal que vai pra ver a banda acaba não tendo onde parar o carro, graças ao engarrafamento de pessoas e carros de mão. Quando consegue pegar uma mesa no bar, os amigos parasitas pedem cerveja na sua conta, mas não pagam o couvert. E a conversa? De tão alta, faz a banda de 4 integrantes soar como um radinho de pilha.
Porém, devemos admitir: os parasitas de Recife não são culpados. Eles são frutos de uma cidade carente de programação de qualidade pra todos. A pessoa acaba tendo que ir pra lugar de gente alternativa, tudo em nome da noite agitada. Mesmo sabendo que, se chover, não cabe todo mundo dentro do bar.


*pineapple: sabe quando, no curso de inglês, você tá estudando vocabulário? Digamos que você está aprendendo o tema “furniture”. Aí no livro tem um desenho de um ambiente, com um monte de coisa pra você identificar o que não faz parte daquele conjunto. Table, chair, desk, sofa... quando, de repente, tem um abacaxi num canto. É aí que você percebe que aprendeu, e circula o abacaxi, gritando “Pineapple! Pineapple!”. Entendeu?

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Pingo de ouro


Eis que eu entro na padaria procurando uma guloseima nova e, curiosamente, encontro. O nome é "pingo de ouro", mas com certeza deve ser dessas coisas que tem um nome diferente em cada cidade e/ou década.

Ele é mais ou menos do tamanho de um brigadeiro pequeno, se fosse um pouquinho menor seria melhor de comer um de vez, sem ter que morder e se sujar. Mas esse tamanho limítrofe é bom, que desafia, cria uma certa tensão. Tem uma consistência quase de palmier, mas é mais macio. E rola um açucarzinho de confeiteiro por fora, toda uma delicadeza.

Bom que só, recomendo. Comprei naquela padaria (ou seria delicatessen?) Engenho Casa Forte, junto da Praça de Casa Forte. Até barato, R$16,90 o quilo.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Morreu galego


Estou eu aqui em casa na tranqüilidade daquela hora pré-almoço, quando sou surpreendido por uma zuada que contrastou com as diárias buzinadas, palavrões, batidas de carro e sirenes com pressa: PEI PEI PEI PEI.

Assim mesmo: quatro, com um intervalo mínimo entre cada, como se fossem tiros de pistola. Não é que eram? Lembrei na hora que minha esquina é tida como "perigosa", apesar de essa fama ter passado há muito tempo, já que eu nem lembro da última vez que aconteceu algum ato criminoso por aqui, pelo menos à luz do dia.

Aí pensei na família do pobre coitado que tava indo almoçar depois de uma manhã de trabalho, quando aparece um infeliz com uma pistola na mão pedindo "celular e carteira, boy", aí ele fez besteira e o cara se assustou e sentou o dedo.

A essa altura, já tinha juntado aquele morreu galego, debaixo da árvore entre meu prédio e o vizinho de trás, onde ficam uns caras vendendo capa de celular e as frutas da estação. Por sinal, demorou um bocado pra juntar gente em volta seja lá de onde foi o ocorrido, o que me causou um certo estranhamento. Alguém tinha que descobrir o que aconteceu, né.

Aí Diogo desceu, que eu não curto ver gente morta ou mortalmente ferida, pra ver o que rolou. Eis que, das más notícias, a melhor: quem morreu foi o ladrão!

Ele assaltou um cara parado no sinal, pegou celular e carteira boy, e, na fuga, recebeu quatro tiros bem-dados pelo motorista do carro de trás. Claro que o cara fugiu, deixando o larápio morrendo na calçada com o berro na mão, além dos pertences recém-adquiridos.

Logo tudo fez sentido. Se um cara é assaltado e leva quatro tiros, o ladrão foge e todo mundo junta em volta nem que seja pra ver o pobre coitado morrendo. Mas se o elemento é quem leva os tiros e fica na calçada enroscado na bicicleta com um .38 em punho, quem é que vai arrodear o cara pra ver se ele tá bem? Por isso o povo só aglomerou depois que apareceu o primeiro carro de polícia.

E quem é que lembrava se o justiceiro era homem ou mulher, a placa do carro ou sequer marca, modelo e cor? Ninguém, claro.

Posso inclusive aproveitar a baixa (nula?) audiência desse blog pra dizer exatamente o que eu achei disso tudo, no melhor estilo Tropa de Elite, citando inclusive um compositor local:

chupa que é de uva
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quinta-feira, 10 de abril de 2008

(re)design futurista arrojado

Dia desses eu estava refletindo sobre como todos os carros estão se tornando um só "modelo ideal" de carro.

Sério. A Ford agora tem meio que um "novo padrão" no design dos seus carros, chamado Kinetic. Nem todos os carros que me fizeram pensar sobre isso foram afetados por essa frescura, mas é perceptível que tá rolando uma "modinha" no design automobilístico, e ela tá cada vez mais fazendo os carros ficarem o mais parecidos possível com o Ford Focus:


Eis alguns exemplos:
Ford Ka (1997, 2008):



GM Vectra (1993, 2007):



Fiat Palio (1996, 2007):



Ford Fiesta (1995, 2003):



GM Corsa (1994, 2002):




Todos foram lançados no Brasil depois do Focus, que saiu em 2000. Todos são culpados, qual a dificuldade de fazer carro bonito hoje em dia? Tão todos iguais! Antigamente, os carros eram completamente diferentes uns dos outros! Será isso fruto de uma seleção natural das características mais otimizantes do design, como aerodinâmica (mesmo nos modelos 1.0!) e economia de material na fabricação?

Fica aí a dúvida, né?